Profetismo


A conquista de uma “Terra Sem Males”

 

 

Nos últimos tempos,  a “mui leal e valerosa” cidade de  Porto Alegre vive sob a síndrome da invasão de uma horda de “bárbaros” dos quais ela, com maioria de cidadãos de cara limpa, teria sido vítima nas caladas de noites sucessivas, ao longo de vários anos.

 

O povo da rua que a classe dominante considera pária da civilização urbana, a ralé, a escória social, foi chegando de mansinho, quase descalço, sem barulho de espécie alguma, normalmente de apenas chinelinho de dedo, magro, esfarrapado, desgrenhado, doente, à semelhança de um João Ninguém qualquer e quejandas designações depreciativas, num trôpego pé ante pé, tirando proveito do anonimato normal, por ser apenas mais um no meio da multidão, arrastando entre os braços alçados para o céu, um tosco meio de transporte que tem tudo para ser carroça mais para tração animal do que para tração humana.

 

Com a maior cara de pau, no dizer das más línguas, tirando proveito de um malsinado descuido da sociedade envolvente, essa gentinha foi entrando de mansinho, conquistando terreno sempre mais próximo do tão almejado eldorado urbano que, para os invasores, é o que significa o centro histórico  da cidade. Os “profissionais do lixo” acabaram, ao final de longas jornadas, chegando ao coração da urbanidade. Implantaram sua cidadela ou fortificação, no exato lugar em que puderam adquirir a maior visibilidade possível, bem perto do rio Guaíba, ao lado da estação rodoviária e da Secretaria da Segurança.

 

Acrescente-se a isso tudo, a irreverência que cometeram os párias, quando pelo lado religioso, tiveram a ousadia de batizar seu conglomerado de trezentas moradias com nome de uma santa bem popular: Vila Santa Teresinha.

 

Como se quem é pobre, fraco e sobretudo mal amado, não se sentisse dado a invocar os céus  quando da terra recebe a todo instante, sinais de abandono, quando não de completo desprezo.  A inspiração para um nome de sua cidadela veio como gesto de gratidão ao “pequeno resto de Israel” que os acolheu benignamente: três ou quatro santas mulheres, plenas da vontade de servir, da igreja paroquial Santa Teresinha, o templo mais próximo. Talvez até com total desconhecimento da vida da santinha do Menino Jesus, por parte de quem vive na rua. 

 

Sabemos todos que o diminutivo Teresinha que foi acrescentado ao nome de santa Teresa Martin, prende-se à espiritualidade por ela cultivada em vida: é a santa da infância espiritual, digna portanto dos lázaros metropolitanos, os últimos entre os pequenos da urbs.

 

Como nada acontece por acaso, atrevemo-nos a dizer que foi a fé que “remove montanhas” a que salvou esse Zé povinho, como aliás repetia sempre de novo Jesus de Nazaré, quando da realização de algum milagre: “foi a tua fé que te salvou!” E por que não acrescentar? Foi o próprio carinho do Deus Amor, que jamais abandona as criaturas humanas pequeninas e fracas, porém feitas à sua imagem e semelhança”.

 

Apesar da escolha do nome de Santa Teresinha do Menino Jesus como padroeira, numa espécie de extensionismo de sua própria pequenez diante de todos os concidadãos, a sociedade civil envolvente teima em continuar designando de Vila dos Papeleiros ao lugar em que residem os novos ocupantes. As classes hegemônicas descartam unanimemente o nome escolhido pelos intrusos.                                                                     

 

Na experiência diuturna, o desprezo que sofrem por parte dos vizinhos que se orgulham da cidadania, acontece de modo especial quando, quais autênticos animais de tração, se dispõem a cruzar sinaleiras com suas pesadas cargas. São assacados com buzinadas por trás. Os da classe dominante, não satisfeitos com a celeuma levantada pela retaguarda, ao ladearem-nos com seus carrões primeiro-mundo, de lambuja ainda lhes atiram algum palavrão.                                       

 

Há uns três anos, sob o pretexto de realização da copa do mundo na capital, um vereador de partido conservador, hoje vice-prefeito, conseguiu em seu tempo de vereança, fazer aprovar por seus pares da Câmara, a famigerada “lei das carroças” que obriga o poder público a higienizar a cidade da “poluição” de carroceiros e carrinheiros.  Em vez da vereança limpar a cidade do lixo como esses excluídos fazem, tem a desfaçatez de limpar a cidade daqueles que, por vocação, como carroceiros, gratuitamente, trabalham para tirar deveras da cidade aquilo que os cidadãos descartam e e que também poluem os mananciais, enquanto os desprezados em sua cidadania acabam sendo tachados de lixo urbano, estão aí,  prestando o maior benefício ao Planeta e a todos os seres vivos.

 

O que se pode prever para os próximos três anos de atual administração municipal? Estará concretizada a operação final ou morte dos carroceiros, dos carrinheiros e povo da rua em geral, de que a malsinada lei das carroças é apenas o símbolo, sinalizando no presente o já adiantado processo de substitutivos mais modernosos. 

 

Consagrar-se-á na cidade, especialmente entre a classe dominante, a preocupação apenas estética frente ao lixo. Querem-no o mais longe possível dos olhos, nem que seja embaixo dos tapetes. Se possível, despachá-lo para a lua ou qualquer outro planeta. É prevalecimento grande demais!...

 

Em atitude totalmente contrária, o povo da rua tem os olhos bem abertos para não dizer  escancarados para os resíduos sólidos como verdadeiro luxo e não lixo, pela preocupação que tem, dia e noite, com possíveis fontes de sobrevivência própria e da família. Mudaram até, os tais catadores, com sua desprezível catação, a própria definição de lixo. Para eles, como profetas da ecologia e médicos do planeta que são, lixo é luxo, repleto de pequenos valores que os ricos desprezam. Devolvem às fábricas o que há de aproveitável nos descartáveis e ao mesmo tempo preservam os mananciais, símbolo por excelência da vida.

 

Trava-se na cidade a guerra do fim do mundo já preconizada e anunciada na RIO+20: Biófilos contra necrófilos ou, mais simples, a guerra dos amantes da vida contra os amantes da morte.

 

O verdadeiro pavor que se estendeu pela cidade inteira e que redundou em lei radicalmente contra o povo da rua em geral, é em tudo semelhante ao terror que tomou conta dos cidadãos da Europa, face às hordas de bárbaros que as invadiram, no início da Idade Média, ano de 455 e seguintes.

 

Naquela época, os povos circunvizinhos ao poderoso império romano já em decadência, foram rotulados de bárbaros, no sentido de selvagens, pelos moradores do império, em contraposição aos cidadãos civilizados que se consideravam eles, os de origem romana ou greco-latina. Esses bárbaros arrivistas, em levas sucessivas, constituídas de Alanos, Anglos e Saxões, Francos, Lombardos, Burgúndios, Vândalos, Visigodos, Suevos e Ostrogodos, invadiram cidades e campos dos mais diferentes países e das mais diferentes etnias que faziam parte do continente.                

 

Dentre os citados, os Hunos foram os mais violentos e ávidos por guerras e pilhagens. Eram nômades como nosso povo da rua hoje. Não tinham habitação fixa e viviam a percorrer campos e florestas. Eram excelentes criadores de cavalos. Como não construíam casas, viviam em suas carroças e às vezes também em barracas, que armavam nos caminhos que percorriam. A principal fonte de renda dos Hunos era a prática do saque aos povos “civilizados.” Quando chegavam numa região, espalhavam o medo, pois eram extremamente violentos e cruéis com os inimigos. O principal líder deste povo foi Átila, responsável por diversas conquistas em guerras e batalhas. Pela Europa Católica, Átila recebeu o apelido de “flagelo de Deus” que com esse cognome ficou imortalizado na história universal.

 

No julgar da classe burguesa da Porto Alegre de hoje, foi atrevimento demasiado, o fato dessa miserabilidade  toda, surgida não se sabe donde, mais esfarrapada do que os históricos farrapos do farroupilhismo, a ponto de o próprio Marx, grande analista social, com sumo desprezo, rotular  essa categoria social como lumpezinato  (lumpen proletariat). caracterizando-os como imprestáveis para qualquer mudança ou revolução. Até Marx, o expoente máximo das ciências sociais, além de filósofo e economista sentenciou que o lumpezinato é absolutamente incapaz de qualquer revolução ou mudança. Serve apenas para ser jogado fora como totalmente imprestável, uma inutilidade total. Tratar-se-ia de seres humanos funcionando  como simples “combustível da sociedade consumista.” 

 

Alto lá, orgulhosos cidadãos de Porto Alegre!... Devagar com o andor dessa empáfia!... Na outra ponta, a dos fracos e últimos periga se esconder a base de um autêntico humanismo.

 

Os princípios do humanismo cristão proclamam que “em casos de extrema necessidade todas as coisas são comuns” (in extrema necessitate omnia sunt communia). Porque “a distribuição e apropriação das coisas que derivam do direito humano, não podem impedir que estas coisas socorram as necessidades dos homens. Por isso, todo aquele que tem demais, deve aos pobres para seu sustento. E se a necessidade de alguém é tão grave e tão urgente que é preciso socorrê-la com a primeira coisa que se tem na mão..., então, qualquer um pode aliviar a sua necessidade com os bens dos demais, tanto retirando isso publicamente, como secretamente; e esta ação não se reveste com o caráter de roubo, nem de furto”. Estas palavras não são de algum prefeito, nem do inominável Karl Marx. Elas são de Santo Tomás de Aquino, um dos pilares do humanismo cristão e que viveu em plena era medieval. Palavras fortes que podem ser encontradas na Summa Theologica”

 

Imaginem só: O maior filósofo-teólogo-santo da Madre Igreja, colocando em mãos do povo da rua a estratégia e a tática consolidada durante toda a história universal de ocupação da terra resultadpo dos trabalhos do Pai Criador, que segundo o Filho Jesus, é um Pai que trabalha sempre. E que ordena em seguida “Ide e ocupai a terra” com repetição do Filho Jesus ao chamar de “benditos os mansos, porque possuirão a Terra”.

 

É portanto lei divina, a ocupação pacífica de todo e qualquer lugar que se faça necessário à sobrevivência, quanto mais a “invasão” de elefantes brancos do meio urbano. O Nazareno dedicando uma das oito bem-aventuranças quando proclamou, no sermão da montanha “bem-aventurados os mansos porque possuirão a Terra”. O direito do pobre, segundo Deus Pai e Deus Filho é somente a posse temporária enquanto vive. Jamais a propriedade da Terra que é um direito inventado pelos ricos. 

 

No século XX, precisamente na década de 1950, Dom Hélder Câmara, o mais ilustre bispo e profeta de todos os bispos do Brasil em seus 500 anos de história, repetia a granel a frase de Santo Tomás. Outro dominicano, Gustavo Gutierrez, em nossos dias, escreveu um livro intitulado “a força histórica dos pobres” e lançou as bases da Teologia da Libertação. Essa força histórica dos pobres é nada menos que a força dos fracos porque força do próprio Deus Criador. Está na bíblia: “Aquilo que perante os olhos do mundo é fraqueza, aos olhos de Deus é força e aquilo que é força aos olhos do Deus, é fraqueza aos olhos do mundo” Já dera o grito de libertação o arcanjo Miguel no paraíso de Deus, cuja festa celebramos hoje, dia 29 de setembro, a uma semana das eleições:  “quem é que pode contra Deus?”

 

Marx está desculpado perante a história porque não podia antever os tempos da teologia da libertação em que vivemos no continente latino-americano, desde meados do século XX. Mediante esta ferramenta da evangelização libertadora que desabrocha no Reino de Deus ou Reino dos Céus, guiados pelo exemplo do Homem Jesus de Nazaré, nossa arraia miúda, com Deus de um lado e do outro a metodologia do empoderamento popular que nos fornece o método Paulo Freire da Pedagogia do Oprimido, o povo da rua, munido dessas ferramentas e mais sua caras e coragens, sempre plurais e eminentemente comunitárias, está tomando conta mais e mais do miolo central da cidade. Continuam deixando os cães a ladrar enquanto a caravana dos Profetas da Ecologia e médicos sanitaristas do planeta passam. Estão concentrados perto da rodoviária central. Sua “fortaleza” é lindeira pacífica com a principal delegacia de Polícia da cidade e da própria Secretaria de Segurança do Estado. É o cúmulo da ousadia, proclama a socialite da cidade. Contra eles, só mesmo o rigor da lei. Tinham carradas de razão os Sem-Terra das Comunidades Eclesiais de Base quando haviam tomado a decisão de começar a ocupar latifúndios improdutivos. Na experiência que haviam adquirido como desprezíveis minifundistas, com a destoca das lavouras para o plantio, proclamavam alto e bom som: “a lei é o toco atrás do qual o rico latifundiário se esconde”. Em contraposição, criaram o slogan frente aos legalistas do sistema capitalista: “a luta é que faz a lei!”

 

No sistema capitalista em que vivemos há centenas de anos, rico não necessita de organização nem de lutas. Recebe tudo de graça. O dinheiro, no sistema capitalista em que vivemos, compra tudo e algo mais. Pobre, pelo contrário só através de muita luta consegue alguma leizinha, ou alguma política pública que o beneficie. Direitos Humanos para os pobres são sempre negados ou desreipeitados.

 

As Comunidades Eclesiais de Base, ou base religiosa-política-econômica do povo de Deus de hoje, deu sinal de partida para a conquista dos direitos humanos espezinhados, no Encontro do Episcopado Latino-Americano, no ano de 1968, na cidade de Medellín, Colômbia.

 

Foi um movimento de saída dos centros urbanos de não poucos apóstolos, missionários ou agentes de pastoral, e de aterrissagem junto às bases pobres da nova Igreja, a da Libertação, através da operação denominada inserção. Na região metropolitana de Porto Alegre, precisamente na cidade de Canoas, as Comunidades Eclesiais de Base como em outras milhares de periferias, empoderadas pela força da teologia Libertadora, fazendo uso da metodologia do educador Paulo Freire, ocuparam latifúndios, verdadeiras sesmarias em passado longínquo que viraram terras ociosas para os dias de hoje, nas beiras das cidades, em compasso de espera para serem vendidas a preço de ouro. pela burguesia. Acabaram por ser ocupadas por quem suspirava por um cantinho que fosse, a fim de poder morar com um mínimo de decência. .

 

Isso aconteceu muito em Canoas e municípios vizinhos, quando da implantação do pólo petroquímico de Triunfo. Diziam os jornais da época que, no final dos anos da década de 1970, haviam acorrido à nossa região metropolitana nada menos que 13.000 operários, provenientes de um êxodo rural fantástico, a chamado dos noticiários,  em busca de trabalho na construção do pólo.

 

Uma mulher carroceira de nome Sônia participante do arrastão da ocupação urbana em Canoas, planejada pelas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja da Libertação, empolgou-se com a força dos pobres unidos pela fé cristã. Depois de vários anos de moradia na casa que construíra a duras penas, no lote a ela destinada pela associação de moradores, veio ao encontro da Comunidade pedindo socorro. Compartilhou com a Igreja o seu problema e dos seus liderados.

 

Na época, pelo simples fato de Canoas ser base aérea militar, o prefeito do município não era eleito pelo povo, mas nomeado pelos militares. Tempestivamente, como digno filhote da ditadura, decretou o edil nomeado, que  o grupo dos 30 carroceiros da Sônia, fosse barrado na rotina diária de catação no lixão da cidade, situado no bairro Guajuviras, em periferia oposta à que haviam ocupado para morar, ao grito convocatório das Comunidades. Ainda que única mulher do grupo de carroceiros, Sônia era respeitada como a líder, talvez a razão de fundo tenha sido o fato de ser cartomante além de carroceira, Teria pesado mais a magia do que a capacidade de liderar?!...

 

Esse foi o primeiro grito que as CEBs do Rio Grande do Sul ouviram da parte de gente considerada “lumpezinato” pelos sociólogos marxistas.  Pelo menos todos os consideravam como da classe mais baixa de criaturas humanas. Pessoas que ontem como hoje, se defendem dentro da loteria biológica, com as carências que as circunstâncias lhes impõem, para alcançar a sobrevivência individual e famíliar.

 

Concluímos mais tarde que, se esses 30 carroceiros haviam conseguido se organizar,já também haviam contraditado Marx, porque sob a liderança de uma mulher já não eram os absolutamente incapazes para qualquer coisa na vida. No mínimo já se haviam transformado em classe, a exemplo do nosso único Mestre Jesus que, no dizer poético-catequético do nosso bispo profeta Dom Pedro Casaldáliga “Jesus, na oficina de José, virou classe social”.

 

Como carroceiros organizados, dispunham de carroça como meio de transporte e assim, conseguiam resultado melhor, porque podiam, com a força dos cavalos, deslocar-se bem mais depressa e para mais longe do que categorias mais baixas: catadores, carrinheiros e povo da rua em geral. Mais força de deslocamento está ligada a coleta de resíduos de melhor qualidade e em maior quantidade, o que simplifica a catação e que garante melhoria de vida.

 

 A verdade pura e simples é que a vitória da ocupação conjunta dos mais de mil sem-moradia ao grito das CEBs na ocupação de terra para morar, abrira os olhos da carroceira, agora atrás do profetismo  de uma segunda operação: a “ocupa-lixão de Canoas”

 

O catolicismo modelo latino-americano ou da teologia da libertação, animava a todos com força e coragem em vista de sempre melhor organização, tal e qual a arrancada anunciadora da Boa Nova do Reino, dos primeiros doze apóstolos em companhia da Mãe Maria os tirou para fora do cenáculo com assombrosa animação e coragem.  Organizaram-se marchas em direção aos palácios do poder, desfiles de massas, não só de carroceiros mas também de apoiadores que os acompanhavam a pé mesmo, rumo à prefeitura, à Câmara de Vereadores, ao Ministério Público.

 

Talvez pelo insólito de desfiles do gênero terem caráter de novidade naquela época, a prefeitura acabou voltando atrás e a coleta de resíduos no lixão foi reaberta. Vitória que causou um alegrão geral e que as CEBs nunca esqueciam de celebrar, em vista de sempre mais forte empoderamento popular dos pequeninos.

 

Pouco tempo depois, quando as Comunidades decidiram radicalizar em sua opção pelos pobres indo atrás, diretamente de carroceiros e carrinheiros que já haviam começado a circular pelas periferias e beiradas da capital Porto Alegre, agentes de pastoral com experiência bem consolidada na vizinha Canoas, emigraram para Porto Alegre, instalando-se nas Ilhas do Guaíba, aonde se concentravam em maior número os lixeiros-carroceiros.

 

Para a inauguração de um barracão como lugar de trabalho coletivo para a triagem dos resíduos sólidos, na Ilha Grande dos Marinheiros, escolheu-se um domingo de Ramos. Sônia e seus carroceiros de Canoas, naquela manhã de domingo, vieram com suas carroças enfeitadas com palmas de coqueiros, percorrendo os 15 quilômetros de distância por estradas asfaltadas e de chão batido, atravessando trilhos da viação férrea, subindo e descendo pontes e viadutos a fim de participar dos festejos daquilo que foi o primeiro Galpão de Catadores – coletivo de trabalho – de todo o estado do Rio Grande do Sul que enxameou depois para mais de uma centena de unidades de trabalho coletivo em todo o estado.

 

Esta procissão de ramos rumo a um “Galpão de Catação” na maior ilha do Delta do Jacuí, onde a pobreza extrema disputa até hoje taco a taco, os o direito de morar com a mais alta classe de Porto Alegre, a dos nababos com suas mansões, marinas particulares e toda uma parafernália de coisas de que a burguesia pode e sabe desfrutar, foi a mais maravilhosa celebração de entrada na Semana Santa que experimentamos em nossa vida. Nos sentimos reproduzindo “ipsis litteris pontis virgulisque” aquela entrada histórica na cidade de Jerusalém, de Jesus de Nazaré, montado no burriquinho, como sinal de mansidão e paz, rodeado de uma multidão de amigos e apóstolos pobres.

 

Infelizmente veio contrapor-se, na mesma semana, a Via Sacra do mesmo Jesus na sexta-feira santa.  A classe dominante de Jerusalém conseguiu envenenar os forasteiros que acorreram para o ritual da Páscoa. Assim mesmo não poucos deixaram de embarcar na canoa que forçou o pagão-quase-cristão governador romano Pilatos, indeciso entre soltar ou condenar o prisioneiro divino. Sentiu-se ameaçado de perder a autoridade e o cargo. Acabou cedendo aos gritos da plebe, fermentada pelo falso levedo do partido dos sumos sacerdotes e dos anciãos do templo.                                                     

    

Aos poucos, empoderados pela Igreja dos pobres, à luz do método VER-JULGAR-AGIR e da pedagogia dos oprimidos, o exército dos catadores foi avançando, pé ante-pé, rumo ao coração de Porto Alegre, porque, para eles, aí se encontra a mina de ouro dos resíduos tanto quantitativamente como qualitativamente. No centro histórico da cidade em que circula, mora e trabalha a burguesia, com suas casas de comércio, prédios, repartições públicas, museus, templos, vitrines, bares, armazéns que compõem toda um conjunto de coisas de que a sociedade civil consumista necessita própria, o descartável também se torna superabundante.

 

A invasão dos novos “bárbaros” de hoje, foi se dando pelos quatro pontos cardeais da cidade. Pelo lado norte, brotaram das Ilhas do Guaíba. Pelo lado Sul, ocuparam o entorno do que é hoje o estádio municipal Lupicínio Rodrigues que antes de ser estádio, era vila de catadores e carrinheiros. Depois, tendo como trampolim a Vila Lupicínio Rodrigues, em passos mais ousados, ocuparam o entorno do Planetário da UFRGS. Pelo Leste, fizeram acampamento no vazio deixado por 60 malocas, junto ao Trensurb, lado oposto à igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, Pelo lado oeste, entulharam de malocas o entorno do Chocolatão, numa área nobre por excelência, entre o parque farroupilha e os edifícios dos tribunais.

 

Nas ilhas onde estava o maior contingente de carroceiros, carrinheiros e catadores trabalhando em Galpão primeiro coletivo de reciclagem de todo o Rio Grande do Sul e onde tinham implantado uma base sólida, o prefeito, que na época era do partido PDT, sempre que aparecia por lá, era para xingar o povo da rua. Lançava-lhes  em rosto quase  aos gritos, a acusação: “Vocês são ladrões de lixo  porque, no instante em que os moradores colocam os saquinhos de descartáveis fora da soleira da porta das casas, esses resíduos passam a ser propriedade da prefeitura”!

 

Acabado o tempo da administração do PDT, o povo da cidade elegeu Olívio Dutra do partido dos trabalhadores (PT). Já nos primeiros dias de seu governo, Olívio visitou o galpão de reciclagem da primeira agremiação de catadores do Estado, a Associação dos Catadores de Materiais de Porto Alegre. Admirou a azáfama dos trabalhos em favor da sobrevivência das famílias e prometeu o apoio do seu governo. Depois de verem concretizada a experiência-piloto e transformada em política de governo, a experiência-piloto realizada pela Igreja da Libertação com a Associação de Catadores em POA, foi sendo transformada também em política de estado quando começaram a aparecer leis beneficiando catadores e seus coletivos e que tem seu ponto culminante na Lei dos Resíduos Sólidos, proclamada pelo governo Lula, depois de 20 anos parada no Congresso Nacional.

 

Depois de dezesseis anos de administração da cidade numa sequência de prefeitos petistas que iniciou com o Olívio Dutra e que não teve solução de continuidade com Tarso Genro, Raul Pont, João Verle, Porto Alegre havia sido  dotada com 16 unidades de trabalho coletivo na reciclagem na média de uma por ano.           

 

Na Vila dos Papeleiros dos ocupantes do entorno do Planetário da Universidade Federal, o prefeito Olívio Dutra sustentou contra a maioria dos vereadores de linha conservadora, uma verdadeira batalha campal. Lá trabalhava como agente da Pastoral da Ecologia, a saudosa Irmã Udila já falecida, em perfeita sintonia com as CEBs das Ilhas do Guaíba e com a AREVIPA que ia começando as bases da cidadela dos carrinheiros, no coração da cidade, a mina de ouro tão sonhada pelo povo da rua, em romaria desde as periferias rumo ao Centro Histórico.

 

De mãos dadas, Olívio e a religiosa da Congregação das Missionárias de Jesus Crucificado, sustentavam que os pobres tinham o mesmo direito de morar no centro da cidade como qualquer outro cidadão. Um vereador que completa neste ano a nona legislatura, não se continha quando dizia que o Prefeito tinha que vender o terreno ocupado pelo pobrerio, junto ao planetário. Com o resultado da venda podia comprar cinco vezes mais áreas nas periferias, podendo assim construir cinco vezes mais casas populares. O Partido dos Trabalhadores na pessoa de Olívio, só descansou quando conseguiu realizar  o tão almaejado projeto de moradia, prova inconcussa de que, como partido da classe trabalhadora, havia colocado no centro de preocupações do modo petista de governar, a fatia mais pobre dos cidadãos.

 

Quando, 16 anos atrás, um grupo de 30 carrinheiros ocuparam a área baldia no bairro Navegantes contígua a igreja-santuário da Mãe e Rainha dos Catadores, e aos trilhos do trensurb, o prefeito de então era o atual governador Tarso Genro, também do PT.  Num primeiro momento titubeou um pouco em relação à decisão.  No momento em que recebeu a informação de que os ocupantes estavam acompanhados por alguém da Pastoral da Ecologia da Igreja Católica, contemporizou para, mais tarde, ir ao encontro dos bravos lutadores em favor da própria sobrevivência e da família. Consagrou-lhes a inteligência da tática da ocupação de elefantes brancos. Parabenizou-os até pelo glorioso nome de Profetas da Ecologia, com eles firmando um convênio para a posse da área, que possibilitou depois à Igreja de Porto Alegre enviar à co-irmã da Alemanha, um projeto para a obtenção de recursos para a construção de um Galpão da reciclagem.

 

Por se tratar de ocupação próxima do centro histórico da cidade, impunha-se segundo a opinião do Prefeito Tarso, não construir um simples barracão como fazíamos nas periferias, mas sim um prédio condizente com o padrão dos edifícios do meio urbano.

 

Com essa primeira ocupação para a categoria carrinheiros, contígua aos trilhos do trensurb, no lado oposto ao da igreja dos Navegantes, a mina de ouro tão suspirada desde sempre pelo povo da rua como o ponto dos sonhos, e que parecia impossível de realizar, o denominado centro histórico da cidade, distava apenas algumas quadras. Na realidade com a unidade Profetas da Ecologia, estava inaugurada a operação “ocupa Porto Alegre” pelos novos bárbaros, hoje perseguidos pela atual administração da cidade através da famigerada Lei das Carroças da administração que completa oito anos.

 

Coube a João Verle, prefeito substituto, também petista, lançar o Projeto Integrado da Entrada da Cidade (PIEC). Firmou um convênio entre Prefeitura e entidade Jurídica que representava a Pastoral da Ecologia e que assessorava unidades de trabalho com Catadores. O objetivo do convênio era iniciar ao trabalho de catação para três novas unidades a serem construídas na entrada da cidade ao longo da avenida Castelo Branco na região denominada portal da cidade,  em que hoje está sendo construída a arena do Grêmio Futebol Clube.

 

Apenas iniciado o projeto PIEC, aconteceram as eleições e o PT foi substituído na administração de Porto Alegre, pelo PMDB em aliança com o PDT. O novo governo suspendeu o projeto “entrada da cidade e também o convênio que João Verle havia feito com vistas ao treinamento de catadores para novas unidades. Deixou-nos dependurados no pincel segundo a expressão popular, sem nos dar nenhuma satisfação. Tivemos que nos adaptar às determinações da nova administração. Os carrinheiros, individualmente coletores de resíduos sólidos realizados de casa em casa que experimentavam o calor humano com que as famílias e mesmo lojas da cidade, satisfeitíssimos com a obra de caridade praticada com a entrega dos resíduos sólidos bem limpinhos e bem selecionados, foram substituídos por um coletivo de catadores, recebendo na unidade de triagem os resíduos sólidos coletados pela prefeitura, em pé de igualdade com todas as demais unidades da cidade. Nossa unidade, não fora construída especialmente para catação realizada pela prefeitura e onde os resíduos sólidos eram coletados pelo DMLU em toda a cidade e distribuída de maneira semelhante para todos os galpões. Pelo espaço de 8 anos, tempo em que dura o atual governo de POA, tiveram os catadores do galpão Profetas da Ecologia, de se conformar em ser um verdadeiro lixão a céu aberto por falta de adequação do prédio para a mudança.                                          

 

O episódio mais grave ainda aconteceu com este prédio Profetas da Ecologia. Explicamos acima que, por convênio firmado com o prefeito Tarso Genro ficamos com a obrigação de buscar recursos financeiros a fim de que não destoasse dos demais prédios em área urbana.  O edifício para carrinheiros, acabou sendo construído às expensas da Igreja Católica e de recursos provindos da Igreja co-irmã da Alemanha.                

 

A Prefeitura Municipal teve a desfaçatez de, simplesmente se apropriar do edifício que custou à Igreja Católica mais de R$100.000,00 na época do convênio com Tarso Genro, então prefeito e hoje governador do estado. A Igreja havia destinado a unidade para funcionar como local de projetos-piloto, ontem de Carrinheiros, e hoje de moradores de rua a serem iniciados ao trabalho a partir das melhores inclinações de cada um desta última categoria em particular, que está crescendo na cidade.

 

No vila dos papeleiros do chocolatão, moravam e trabalhavam 150 famílias de carrinheiros. Veja-se a diferença do modo de governar entre o petista Olívio Dutra e a atual administração que começou peemedebista e está para concluir os oito anos como pedetista. Enquanto Olívio teimou em consagrar a História da Salvação dos Profetas da Ecologia e sanitaristas do Planeta, em lugar nobre do praticamente centro da cidade, a atual administração inaugurou um movimento de retrocesso como se dissesse um vade retro satana. Despacharam de volta para a mais longínqua periferia os pobres conquistadores de seu eldorado, o centro. Aqui no chocolatão, eram 150 catadores. Na longínqua periferia, na tal flamante e maravilhosa transferência trombeteada até pela administração de que foi feita com a assessoria da própria ONU, no galpão de reciclagem há somente 50 vagas para o trabalho e a própria sobrevivência.

Num verdadeiro segundo esforço de Císifo, já temos fortes indícios que desse quinto dos infernos para onde foram projetados, já iniciaram novamente a caminhada rumo à mina de ouro em que sonham garimpar.

 

Prevíamos em fins de 2004 que, com o novo governo, fruto da aliança de PMDB-PDT e com uma ideologia diferente, a possibilidade de um retrocesso e até de total decadência  que ameaçasse o povo da rua em suas comunidades de carrinheiros e catadores. Não deu outra.

Para além dos presságios, como setor da Pastoral da Ecologia, uma semana antes da tomada de posse do prefeito da aliança dos dois partidos citados, decidimos redigir uma carta pessoal, endereçada ao recém-eleito edil da cidade. Situávamos na missiva, a extrema fragilidade das mais de uma dúzia de unidades fruto da cidadania porto-alegrense, colocando-nos até como Igreja católica com largos 30 anos de prática, à disposição do poder público como trabalhadores trabalhadorescaso necessidade, exclusivamente em favor das necessidades  crescentes da reciclagem dos resíduos sólidos em nossa cidade. Infelizmente estamos até hoje  esperando resposta.                                                    

 

Resumindo: a epopéia da arrancada salvadora dos Catadores, iniciou nas periferias de Porto Alegre, em direção à sonhada mina de ouro onde encontrariam superabundância de resíduos sólidos à disposição para o garimpo. Acalentaram sua esperança da chegar  em sua nova pátria, para eles uma “terra prometida” por Deus, durante mais de vinte anos de lutas e sofrimentos sem nunca perder o rumo.. Sopitaram a ânsia do “bem viver” que alimenta os povos indígenas da Bolívia e Equador. Semelhantemente ao povo guarani-missioneiro dos Sete Povos, cujo sonho estava centrado em sua querida “terra sem males” que os tornou aptos em ser o “povo fonte” do Rio Grande do Sul, segundo a narração de nossa história contada por Érico Veríssimo em seu livro “O Continente”.

 

Finalmente o dia da chegança com a plena realização do sonho: a Vila Santa Teresinha, situada bem no coração da capital, no centro histórico, entre as avenidas Castelo Branco e Voluntários da Pátria.Os recursos financeiros para as moradias com a total urbanização é proveniente  do Ministério das Cidades de governo, também petista, do operário metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva. Por obra e graça do titular daquela pasta, o ministro petista Olívio Dutra, que é ao mesmo tempo de origem indígena, do povo guarani das Missões e que leva os gloriosos títulos de ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do estado do Rio Grande do Sul, um verdadeiro orgulho de nossa cidadania pela sua devoção para com o povo da rua: carroceiros, carrinheiros e catadores, últimos entre os últimos.

A atual administração  PMDB-PDT, depois de oito anos de governo que, em seu segundo quadriênio termina a 31 de dezembro de 2012. Vai deixar para as atualmente 18 unidades de reciclagem de catadores, carrinheiros e povo da rua em geral, em total abandono e decadência. Salvo alguma possível exceção, completamente entregues a si mesmos, sem ninguém por eles por parte do poder executivo público municipal. Minto porque, em meio às quase insuportáveis aflições da Caminhada, e para não dizer que às vésperas das eleições não digo nada dos que se apresentam como novas candidaturas e também de um PT com futuro promissor,, devo assinalar os nomes de dois candidatos heróis em nos servir de tábua de salvação. São também do Partido dos Trabalhadores, esses dois nomes de autênticos consoladores dos aflitos moradores de rua: Celsinho da CUT e Marcelo Sgarbossa.

 

O primeiro, Celsinho da Cut, amassou barro junto conosco até percorrendo galpões de reciclagem em petição de miséria, as pocilgas que referi acima. Ele, além de ter sido presidente da Central Única dos Trabalhadores até ontem, é formado em filosofia pela PUC Marista de Porto Alegre. 

 

O segundo Marcelo Sgarbossa é esperança para os em breve carroceiros a pé, ser coordenador da Massa Crítica dos bicicleteiros porto-alegrenses. Será o vereador dos Ciclistas ou bicicleteiros a fim de dar o máximo de apoio para vermos se, na falta de meio de transporte dos carroceiros e carrinheiros provocada pela malsinada Lei das Carroças, podemos arranjar ao menos o meio de deslocamento mais saudável e inteiramente ecológico, que é a bicicleta.

 

Sim, porque a carroça do carroceiro, além de meio de transporte diário de resíduos sólidos é ao mesmo tempo meio de transporte da família do carroceiro, de seus parentes e até de seus vizinhos, para, por exemplo, uma corrida rápida até um médico ou um hospital, ou então para um lazer de fim de semana na casa de pais e parentes. Além disso tudo, vimos um dia por mês, em vez dos resíduos sólidos por todos os lados da carroça, em sacos dependurados, excetuando o lado da frente em que senta a pessoa do carroceiro, “Carroça de Papai Noel” como a apelidou o concidadão porto-alegrense, ele, o carroceiro, lépido e contente ruma à sua casa e comunidade carregando o rancho mensal que o P.A.A. do governo Lula abastece o  rancho para todas as famílias necessitadas.

 

Além do estado de decadência generalizada em que se encontra a maioria das 18 unidades atuais de catação do povo da rua, algumas em situação péssima onde o povo cata em autênticas pocilgas. Para a refeição tem que virar bóia-fria, se alimentando em cima do lixo, rodeado de detritos mal-cheirosos por todos os lados, nas piores condições que se possa imaginar.

 

A atual administração municipal que termina, teve ainda a ousadia de diminuir os espaços que esse povo de rua ocupou para trabalhar e poder sobreviver. A própria vila Santa Catarina, a cidadela conquistada a duras penas, está inteiramente degradada. Por ela circula atualmente, mais de uma centena de carrinhos entulhados de lixo, que tem de estacionar ou no meio das ruas ou em frente das próprias moradias. Isso porque a Prefeitura se apropriou de uma enorme área onde podia estar fazendo triagem e prensagem, além de refeitório e cozinha essa centena de carrinheiros andarilhos. Transformou grande área de um maiúsculo galpão destinado pela administração petista que precedeu a atual peemedebista-pedetista, de local exclusivo para catação em oficina de conserto de máquinas e carros do próprio DMLU.

Outro local bem central e espaçoso, debaixo do viaduto que desemboca diretamente na estação rodoviária depois de cruzar por cima da avenida Alberto Bins, e que no último ano da administração petista, anterior á atual do PMDB-PDT, um grupo de 15 carrinheiros ocupou, primeiro como abrigo noturno e depois para trabalho com resíduos, fáceis de coletar, de excelente qualidade que, além de limpos, dado o simples fato de estarem rodeados de lojas, bares e restaurantes.  Já haviam conseguido, neste local, sobreviver com folga.

 

Um sacerdote da Inglaterra que havia desembarcado em Porto Alegre para o Encontro de Teologia e Libertação, realizado em janeiro de 2005 na PUC, tendo visitado este último local, ao contemplar os 15 carrinheiros em ação, deixou em moeda inglesa o necessário para a compra de uma prensa, a fim de aumentar o ganho daquele povo da rua.

 

Relatou-nos que, sabendo os paroquianos ingleses que o pároco viria para um país pobre como o Brasil, se haviam cotizado a fim de beneficiar alguma comunidade que seu pastor visitasse, aqui em Porto Alegre. Entusiasmado com a extraordinária movimentação das mãos, particularmente das mão femininas, movidas exclusivamente pela energia solar, não duvidou um instante. Entregou àquele grupo auto-empoderado de carrinheiros, a importância trazida em moeda inglesa.

 

Não sabemos como e por que o grupo desapareceu ou se foi forçado a desaparecer. Constatamos depois que o lugar em que trabalhavam virou capatazia do DMLU. Conseguimos com grandes dificuldades, salvar a prensa doada pela comunidade paroquial inglesa do sacerdote de padre Gerry Proctor. A prensa está em pleno funcionamento na unidade de nome RECICLANDO PELA VIDA. junto à Vila Santa Teresinha, 

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Olívio Dutra que logo no primeiro governo do presidente Lula ocupou o Ministério das Cidades, destinou uma verba para o projeto de moradias da Vila Santa Teresinha, ocupada exclusivamente por carrinheiros. Mais uma vez um petista de qualidade e tenacidade consagrando como moradia e definitivo trabalho carrinheiros agora chagados à sua tão sonhada mina de ouro, autêntica Terra Prometida, ou Terra-Sem-Males em que se transformou a Vila Santa Catarina, no seguimento dos Sete Povos das Missões, como o Oitavo Povo das Missões de hoje, ano 2012, dispostos a reproduzir o Tupãbaê guarani em autêntico “trabalho para Deus” que é a tradução da palavra composta, em português.

 

As Comunidades de catadores que, numa primeira fase eram apenas Comunidades Eclesiais de Base, hoje através de uma autêntica iniciação cristã modelo latino-americano, possuem a rica possibilidade intrínseca de serem ao mesmo tempo Comunidades Ecológicas de base e  também Comunidades Ecumênicas de base. Da sigla CEB’s progrediram para CEEEB’s, triplicadamente Comunidades.

 

Por acaso não é este o Projeto de Jesus trazido à terra de junto do Pai? Quem tem melhor chance de converter, através de sete ou oito horas de trabalho por dia juntos, a custo zero de investimento, do que um agente de Pastoral da Ecologia  em ação nos Galpões de Reciclagem para concretizar Comunidades ?... Já dizia Antoine de Saint-Exupéry, autor do “Pequeno Príncipe” em seu segundo livro “A terra dos homens”: Mete-os juntos a construir uma torre (isto é, até mesmo um trabalho até certo ponto inútil) que os terás transformado em Irmãos”.

 

Quanto mais um Catequista da Libertação da Igreja a serviço da organização de Comunidades, inflamado de uma Mística ou uma Espiritualidade de caráter missioneiro?...



PROFETAS DA ECOLOGIA


– A história da conquista de um espaço – 

Se há um grupo humano que pode ser considerado símbolo por excelência dos excluídos, é bem o dos catadores, papeleiros, carrinheiros e moradores de rua em geral. A opinião pública costuma designá-los simplesmente com o vocábulo lixeiros. Vítimas que são do pior dos preconceitos, há assim mesmo, quem se permita o luxo de um buzinaço, de dentro de seu automóvel, ao esbarrar com eles nas sinaleiras. Isso quando, de passagem e de lambuja, ainda lhes atiram algum palavrão pelas costas.

Depois de mais de uma dezena de anos de inserção nas periferias, fomos impactados pela quantidade desses carrinheiros que circulam pelo centro da cidade, arrastando pelas ruas. praças, debaixo de viadutos e pontes, suas pesadas cargas de até 300 quilos, quais autênticos animais de tração, explorados por todo tipo de intermediários que, às vezes, não lhes pagam mais que uma simples garrafa de cachaça.

Misereor super turbam! (Mt 15,32) “Tenho compaixão deste povo” foi o desabafo de Jesus ao contemplar a multidão carente e sofrida de sua terra. Idêntico sentimento foi tomando conta de nós. Como ajudá-los a se ajudarem? Como organizá-los? Outra saída não vimos para gente pobre, que não seja união e organização. Aliás, mutirão, comunidade, deitam suas raízes na própria práxis de Jesus de Nazaré e na cultura popular mais autêntica que nos veio dos índios, especialmente do povo guarani-missioneiro dos Sete Povos das Missões.

Abordagens aqui e acolá, acrescidas de algum acompanhamento em seu dia a dia. Começou a crescer, dentro de nós, a convicção de que deveríamos arranjar um espaço no centro ou perto do centro da cidade, a fim de que tivessem condições mínimas de trabalho. 

Com o andar dos dias, não sem pouca consulta aos próprios interessados, eis que chegara a hora de “fazer a cobra fumar.” “Deus ajuda a quem cedo madruga”, diz a sabedoria popular. “A luta faz a lei” costumam sentenciar os mais afoitos dos Movimentos Populares, entre os quais, o mais conhecido e badalado por seu destemor, é o MST.

Uma primeira etapa foi consumida em tentativas de persuasão, junto à Administração Popular da cidade. Chegamos até a sugerir três áreas passíveis de cedência, nem que fosse a título precário. Mais tarde, feita a experiência-piloto, voltaríamos a conversar e a encaminhar melhor as coisas. Talvez até um pequeno aluguel por mês. Esse caminho se mostrou infrutífero. 

De repente, é o próprio Deus a nos mostrar que vai à nossa frente. Aí nos lembramos do alerta de Jesus: “O Pai trabalha sempre” (Jo 5,17). Se não tivéssemos fé, diríamos que teria sido fruto de mero acaso, uma dessas coisas que, pelos caminhos naturais não se explica de jeito nenhum. 

Demos de cara, na zona norte de Porto Alegre, na Vila Farrapos, com um casal de obreiros da Igreja Evangélica “Assembleia de Deus”. Gente pobre. Ele, da construção civil, “havia passado para o papel” conforme sua própria expressão, quando grassou uma grande onda de desemprego, em meados da década de 80. Ela, negra, vinha de movimentos populares, trabalhadeira que só vendo!... Assessorados por dois profissionais liberais, haviam conseguido pessoa jurídica para uma cooperativa de carrinheiros. Era mais cooperativa-fantasma, só de estatuto, mas não de verdade, significando cooperação entre trabalhadores pobres.

Para que criarmos novo grupo, se já existia, entre gente pobre, antes que nós chegássemos, vontade de ser?... Juntamos esforços, dentro do mais sadio ecumenismo. Botamos a cabeça para funcionar em torno do grande objetivo: conseguir uma área. Os en­contros eram sempre iluminados por passagens bíblicas e orações. Tudo foi ficando claro para nós: os pobres carri­nheiros estavam aí, explorados por to­dos os lados. Exerciam, em favor da ci­dade, um dos serviços mais importan­tes, particularmente nesta nossa era da ecologia, a custo zero para os cofres públicos, mas nossa sociedade continuando insensível ao seu clamor. Porém, se os homens são surdos, Deus, em compensação, é todo ouvidos ao grito dos oprimidos. “Eis que ouvi os clamores do meu povo” diz Ele pela boca de Moisés no livro do Êxodo (Ex 3,7). Cheios de fé, abraçados com Deus, intuímos que tínhamos de conquistar o nosso espaço.

O Mestre Jesus diz: “quando al­guém parte para uma guerra com 5.000 soldados a fim de enfrentar um inimigo que vem com 10.000, deve pensar direitinho se tem chance de vi­tória. Do contrário, antes de empreen­der a batalha, manda alguém à frente, com bandeira branca, a fim de negoci­ar a paz” (Lc 14,31-33). 

Comparamos as forças de lá e de cá. Lá, a Prefeitura do Município, com todo seu poderio baseado em leis, regula­mentos e toda uma parafernália de se­cretarias, funcionários, etc. Um autên­tico Golias. Aqui nós, assessores, grudadinhos aos excluídos carrinheiros. Assessores, po­rém, com todo um passado de lutas na organização de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e Movimentos Populares, com nossos títulos e nossas influências, tais como o fato de termos sido professores de gente ilustre que anda por aí, em cargos públicos e alhures.

Os papeleiros, precisamente por serem fracos, armados com a força mesma de Deus, a “força histórica” dos pobres”, na expressão de Gustavo Gutierrez, fundador da Teologia da Libertação. Sentimo-nos legítimos her­deiros do jovem Davi com sua funda. O dia D do grande embate se avizi­nhava. "Sede astutos como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10, 16), é um dos motes deixados por Jesus. Em outro trecho do Evangelho, Ele lastima que “os filhos deste século sejam mais pru­dentes do que os filhos da luz” (Lc 16,8). 

Montada a estratégia, dividimos as ta­refas. O casal de obreiros, chefes da cooperativa, convocariam 20 compa­nheiros, trabalhar-lhes-iam as consci­ências e nós trataríamos de arranjar os 20 carrinhos que se faziam necessários. Cada carrinho estava or­çado em 280 reais, o que perfazia a so­ma total de 5.600 reais. De um jeito ou de outro teríamos que "descolar es­sa grana", como eles diziam. 

O Espírito Santo, que é o Espírito de Jesus, a Divina Luz, desceu sobre nós e nos iluminou, fornecendo-nos um caminho. Batemos às portas de um ex-aluno, diretor ao mesmo tempo do Banrisul e da Caixa Econômica Estadual, (Flávio Obino). Oferecemos a lateral dos carrinhos como espaço de propaganda para Banco RS e Caixa Estadual, pelo tempo de um ano, em troca do valor dos veículos. A idéia foi aceita e não precisamos desembolsar um único centavo. Ficou acertada a inscrição propagandística: “Campanha pelo emprego - Colaboração BANRISUL e Caixa Econômica Estadual”.

Na parte traseira dos carrinhos, nosso casal coordenador da cooperativa, como bons crentes da Assembleia de Deus, queriam que viesse escrita uma frase bíblica, preferencialmente do Antigo Testamento. Conversa vai, conversa vem, apesar de fundamentalistas honestos – como costumam ser os Evangélicos da “Assembleia de Deus” – acabaram aceitando que, bom mesmo é sempre encostar a Bíblia na vida. A partir da realidade do mundo de hoje, qual seria o significado escondido e mais profundo de um carrinheiro para a sociedade urbana que aí está?

Lendo juntos o livro do Profeta Jonas “nos caiu a ficha”: conseguimos ver no carrinheiro nada mais nada menos que um autêntico Profeta da Ecologia, bem na linha de Jesus. O educador Paulo Freire, em sua Pedagogia do Oprimido, afirma que “quanto mais oprimida uma pessoa, mais silenciosa”. Corroborando essa afirmativa, aí está o carrinheiro, o oprimido por excelência das metrópoles de hoje, totalmente silencioso. Se não fala nada, é exatamente porque é todo ação. Nem lhe sobra tempo para discursos. Até parece que nasceu talhado para a práxis.

Com sua ferramenta coletora, o carrinho, circula pelo centro da cidade, recolhendo resíduos sólidos aqui, ali e acolá. Fazendo isso, como qualquer dos profetas bíblicos, denuncia e ao mesmo tempo anuncia. A um só tempo, dá uma má notícia e uma boa. Como Jonas na cidade de Nínive, o catador, juntando descartes a mais não poder, com esse seu agir frenético, diz que a sociedade capitalista, dentro de sua orgia consumista, será destruída (Jn 3,4). A continuar poluindo do jeito que vai, com essas montanhas de rejeitos por toda parte, com essa produção de alimentos à base de agrotóxicos, com essas emanações de gases para a atmosfera que destroem a camada de ozônio, não sobrará ninguém dentro de não muitos anos. A cidade capitalista-consumista está com os dias contados. A Nínive moderna cairá. 

Reciclando o lixo que recolhe, através da reutilização dos materiais e devolvendo matéria-prima para as indústrias, o papeleiro está também dando uma Boa Notícia. Anuncia a nova sociedade que vem por aí, nesta era da ecologia, quando estaremos todos de bem com a vida, em harmonia com a natu­reza. Ele mesmo, como carrinheiro novo, sacu­dindo seu individualis­mo, trabalhando em mutirão, em associação com seus companheiros, através de uma economia solidária, anuncia as novas relações en­tre os seres humanos. Não mais de explora­ção, mas relações de cooperação, de solidariedade, de fraternidade, de mútuo auxílio. O princípio básico da nova sociedade, da qual a organização dos carrinheiros é uma pequena amostra, é este: “De cada um de acordo com suas possibilidades para cada um de acordo com su­as necessidades”. Solidariedade a toda prova.

Finalmente raiou o dia D, 27 de se­tembro de 1994. Às 7 horas de linda manhã primaveril, lá estavam, esperan­do, os 20 carrinheiros, na porta da fá­brica, no bairro Niterói, em Canoas. Pelo portão aberto, saem os 20 carri­nhos novos, com as cores ecológicas e bem brasileiras: o verde e o amarelo. Nas laterais a propaganda bancária. Atrás, em letras garrafais: PROFETA DA ECOLOGIA. 

A um sinal de apito do presidente da cooperativa, a partida. Rua afora, bem na hora de pico matinal. Atravessamos a federal (BR 116), subimos e desce­mos viadutos, cada carrinheiro com seu apito na boca. Saindo de Canoas, a entrada solene em Porto Alegre, em fi­la indiana, tão comprida quanto esperança de pobre, medindo mais de 100 metros. A ban­deira nacional à frente, ladeada pelo emblema do cooperativismo. Tudo en­gendrado por eles, para grande surpre­sa nossa. E depois, há gente que não acredita que, além de pão, o povo tem fome também de organização, de beleza, de ritos. 

Engarrafamos o trânsito na avenida Farrapos, na rua Alberto Bins e outras ruas movimentadíssimas a essa hora da manhã. Aqui e ali buzinaria atrás de nós. Adentramos pela rua da Praia – de propósito, na parte frequen­tada só por pedestres, o calçadão. Descemos outra quadra da Avenida Borges, cruzamos à frente da prefeitu­ra apitando mais forte, como prenún­cio da escaramuça de logo a seguir. Es­tacionamos em frente à sede central do Banrisul, na praça da Alfândega. Perfi­lados, em ordem unida, recebemos so­lenemente a Diretoria do Banco e da Caixa Econômica Estadual, que fez a entrega oficial dos carrinhos por ela patrocinados. Discursos, palmas, fo­tografias, como convém a um fato que queríamos marcar para a cidade e principalmente para os grandes meios de co­municação social. Não faltou nem a música, que foi produzida por um carrinheiro-saxofonista. Seu instru­mento, de dar dó de tão velho e gas­to, mereceu especial atenção do Di­retor do Banco que o presenteou com um novo, uma semana depois. 

Finda a cerimônia, caminho de volta até defronte à igreja-santuário da Senhora dos Navegantes, do outro lado dos trilhos da TRENSURB. Ali ocupamos uma área de mais de mil metros qua­drados. Acabávamos de percorrer, a pé, sempre puxando os carrinhos, em tor­no de 15 quilômetros. 

Como sinal da tomada de posse do terreno, plantamos uma maloca bem no centro da área, para servir de escritório e... mãos à obra, que o dia é curto e o car­rinheiro precisa garantir o pão e o leitinho das crianças. O trabalho começou no mesmo instante: quem buscando papel no centro, com os flamantes car­rinhos zero quilômetros, quem sepa­rando os materiais e quem enfardando. 

Na falta de prensa, a “máquina” de fazer os fardos era uma caixa de madeira. Começavam estendendo uma corda resistente nas linhas de comprimento e largura. Com os pés socavam o lixo selecionado e encerravam a operação dando um nó na corda bem esticada que envolvia o fardo todo. 

Era meio-dia quando os olheiros da Prefeitura começaram a se alertar para a "invasão". O estrupício tinha que chegar até o gabinete do prefeito e es­te, num primeiro momento titubeou em relação à decisão. O Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB), o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) e ou­tros órgãos, teriam que executar a de­terminação. Chega um lote de funcio­nários, munidos de caçam­bas e outras ferramentas como pás, enxadas, carrinhos, etc. Porém lá estávamos nós tam­bém, acampados, esperando pelo que desse e viesse. Fazendo uso de nosso diploma de advogado, iniciamos os car­teiraços: "Não podiam tocar em nin­guém!... Todos eram clientes nossos!”. “Como é que podiam despejar se está­vamos parlamentando diretamente com o senhor Prefeito?!". Não era exata­mente isso que estava acontecendo. Só força de expressão. 

Na verdade, extravasávamos a esperança de que começassem negociações. Para tanto, três dias antes, tínhamos plantado a informação de que ocuparíamos a área, junto a um grande amigo nosso, ocupante de uma da secretarias – Hélio Corbellini, da Municipal de Habitação – que conosco havia sido militante, des­de os tempos de juventude, no movi­mento de Ação Católica (a JEC ou Juventude Estudantil Católica) – com a reco­mendação: "Dia 27!... Até lá, boca fe­chada!... Quando acontecer, lembra-te de nós junto ao Prefeito!”. Com esse torneio de frase nos lembramos da fi­gura do "bom ladrão", junto à Cruz de Jesus que, segundo Santo Agostinho, "depois de roubar a vida inteira, acabou roubando o próprio céu” (Lc 23,42). Lembramo-nos também do arrazoado do grande filósofo e teólogo Tomás de Aquino que, em plena Idade Média ensinava: Quando alguma pessoa, ou um grupo de pessoas são totalmente carentes, sem possibilidade de satisfazer o que é essencial para a vida, tudo no mundo passa a ser comum. Essas pessoas têm o sagrado direito de buscar, em que lugar estiverem, tanto o alimento que for necessário para matar a fome, quanto ocupar um abrigo para poder descansar, etc. etc.”

É que, também nos havíamos lembra­do de uma dica de Jacques Lebret em seu livro “Princípios para a ação”: "Quando vocês quiserem mudar uma estrutura, têm que começar por construir uma base dinâmica. Tendo isso garantido, procurem se infiltrar em todos os esca­lões intermediários, desde os mais bai­xos até os mais altos...” Nossa base di­nâmica estava aí, na pessoa desses 20 heróis que decidiram correr o risco junto conosco, e esse amigo-secretário-municipal era uma das nossas mais significativas infiltrações. Soubemos mais tarde que desenvolveu esforços junto ao Prefeito, como convém a um verdadeiro defensor dos pobres. 

Outro item, que contou muito dentro de nossa estratégia, foi a lembrança do dito de Frei Betto: “Governo é que nem feijão, só cozinha mesmo em panela de pressão!” Em reuniões do “orçamento participativo” ouvíramos dúzias de vezes, tanto de prefeitos do PT como Olívio Dutra, quanto de gente da Administração Popular, a seguinte frase: “Gostamos de administrar sob pressão!” Pois então, “a pressão fica por nossa conta e a administração, por conta deles! Nós vamos fazer a nossa parte, eles que façam a deles!” 

Foram três horas de muita tensão. No local da ocupação, às turras com funcionários de escalões inferiores, tinha que ser mesmo na base do grito e do carteiraço. À semelhança de Moisés "nos mantivemos firmes, como se víssemos o invisível” (Hb 11,27). Aquele que ouve o clamor dos pobres estava ali, nos dando força e coragem, apesar de ameaça até de prisão. Também tínhamos certeza de que estávamos sob os cuidados maternais de Nossa Senhora Aparecida, padroeira de nossos catadores e “madrinha dos que não têm madrinha”, no dizer do Negrinho do Pastoreio. 

De repente, o clima desanuviou. A prefeitura suspendeu o despejo e do gabinete do Prefeito recebemos o convite para a negociação de um convênio. O exército de funcionários da prefeitura deu o toque de retirada e ficamos só nós, em atitude de profundo agradecimento aos céus. Os “muros” de Porto Alegre, à seme­lhança das muralhas da cidade de Jericó, haviam tombado, não já com o simples soar de trombetas (Js 6,1-20; Jz 7,4-7; 19-22), mas ao simples silvo dos minúsculos apitos dos nossos 20 gedeões, os excluídos carrinheiros. 

Poucos dias depois foi assinado o convênio entre a Prefeitura e a nossa entidade “Devoção Nossa Senhora Aparecida” sonhando desde então, com o futuro Galpão de Reciclagem para Carrinheiros. Obrigatoriamente, quando pronto o edifício, deveria chamar-se “Profetas da Ecologia”. Esse mesmo nome de “Profetas da Ecologia, deu nome jurídico depois, a uma entidade que acabáramos de fundar e que reúne leigos cristãos, militantes voluntários, unidos em função de serviço a movimentos populares. A Prefeitura nos cedia o terreno e nós nos compro­metíamos a conseguir dinheiro para construir aquilo que se constituiria no primeiro Galpão de Carrinheiros orga­nizados, da capital e também do próprio Estado do Rio Grande do Sul, o galpão dos PRO­FETAS DA ECOLOGIA, situado à rua Voluntários da Pátria n° 4201, bem pertinho do DC Navegantes, defronte à igreja de Nossa Senhora dos Nave­gantes, e do outro lado dos trilhos do Trensurb. O primeiro presidente da nova Associação – hoje com o nome fantasia de ECOPROFETAS – e que queríamos multiplicar por todo o RS, foi Dirk Hesseling. Juntamente com a esposa Esther, pouco tempo depois, criaram, em Viamão, a segunda unidade de carrinheiros do estado. 

O prédio caprichado dos Profetas da Ecologia, da avenida Voluntários da Pátria nº 4201, é fruto de doações da Caritas da Alemanha, da SCIAF da Escócia e da USBEE. Foi inaugurado solenissimamente no Natal do ano de 1995, com a consagradora presença do Prefeito e de Dom Antônio Cheuíche, bispo auxiliar do cardeal Dom Vicente Scherer. 

Na inauguração do Galpão “Profetas da Ecologia”, o bispo presente também benzeu a grande estátua da Senhora das Águas que, desde 1995 até hoje, sempre preside as celebrações relacionadas à Romaria das Águas. Romaria esta que tem seu ponto culminante na Procissão fluvial de 12 de outubro e que encerra com o Rito do Encontro das Águas, no Guaíba. As águas puras e cristalinas, coletadas nas nascentes das oito sub-bacias e que são misturadas, no gasômetro, com as águas poluídas, renova o compromisso da população do Rio Grande com a despoluição total do rio que banha a capital dos pampas. 

Conclusão

Todos somos políticos, quer queiramos ou não. Pertencendo a partido político ou não. Individualmente ou ligados a grupos, pequenos ou grandes, todos, sem exceção, fazemos política, quer tenha­mos consciência do fato ou não, de dia ou de noite, fora de casa ou dentro dela. Cada qual tem sua trajetória particular no mundo, com sua própria história e consequentemente sua esfera de influ­ência. O segredo está em colocar tudo isso, que nada mais é do que poder maior ou menor, a serviço da melhor das po­líticas. E é nesse ponto que constata­mos uma das maiores omissões de nos­so tempo. Num país onde as massas são tão miseráveis, quanta omissão! Quan­to poder político malbaratado! 

Se somos políticos pelo simples fato de sermos cidadãos, no terreno da fé as coi­sas são um pouco diferentes. Torna­mo-nos pessoas de fé por opção. A fé é da esfera da liberdade e do amor. Só se ama por decisão profunda do próprio ser. Se juntamos corretamente Ecologia, Fé e Política, na linha da opção pelos pobres, o Evangelho vira dinamite em nossas vidas como Evangelizadores ou Catequistas, sempre prontos a pelejar em favor dos excluídos e junto com eles.